Deepfakes e IA: a nova fronteira da engenharia social na aprovação de crédito B2B

Tempo de leitura: 5 minutos

As deepfakes e fraudes corporativas com inteligência artificial estão transformando rapidamente o cenário de riscos para todos os setores. 

Isso porque o avanço das tecnologias de IA tornou possível criar vozes, vídeos e imagens altamente realistas, capazes de simular identidades e enganar processos internos que antes eram considerados seguros. 

Esse novo contexto desafia organizações a repensarem suas operações financeiras de concessão de crédito e validação de identidade, onde ataques cada vez mais sofisticados exploram falhas humanas e tecnológicas.

Neste artigo, você entenderá como deepfakes de voz e vídeo estão sendo usados para burlar processos de aprovação de crédito B2B, por que os controles tradicionais já não são suficientes para enfrentar esse tipo de ataque e quais competências o mercado exige dos profissionais de compliance.

E você, já se considera pronto para lidar com esse desafio?

Quando o fraudador tem rosto e voz

Durante décadas, a fraude corporativa foi baseada em textos. 

Um e-mail convincente, um SMS com link, uma assinatura bem formatada

E, embora esse modelo ainda funcione, não é mais a escolha favorita dos fraudadores, que agora usam voz e vídeos de IA para simular identidades com precisão e enganar até mesmo os profissionais mais experientes.

O caso mais emblemático ocorreu em 2024, em Hong Kong: um funcionário do setor financeiro de uma multinacional participou de uma videoconferência com o diretor financeiro da empresa e outros colegas.

Ele não sabia, mas as pessoas na chamada eram deepfakes criados por IA. Isso resultou em uma transferência de 25 milhões de dólares para os fraudadores. 

O que antes era um experimento, tornou-se uma indústria. 

O número de incidentes com deepfakes saltou de 150 em todo o ano de 2024 para 580 somente no primeiro semestre de 2025, segundo estudo da Surfshark, com perdas acumuladas estimadas em US$ 2,19 bilhões.

Fraudes corporativas com inteligência artificial e crédito B2B

No contexto da aprovação de crédito entre empresas (B2B), a engenharia social com deepfakes encontra um terreno especialmente fértil.

O processo envolve múltiplos pontos de contato humano: videoconferências de apresentação, ligações de verificação cadastral, validações por voz com representantes legais e autenticações biométricas em plataformas digitais.

Cada um desses pontos é um vetor de ataque potencial.

Com ferramentas de síntese de voz treinadas em poucos segundos com áudios coletados de redes sociais ou de gravações de atendimento, um fraudador consegue simular o sócio-diretor de uma empresa fornecedora e confirmar dados cadastrais em uma chamada de verificação. 

Combinado a documentos alterados por IA generativa (contratos, procurações, comprovantes), o ataque se torna altamente convincente.

No Brasil, 42,5% das fraudes corporativas e financeiras já utilizam ferramentas de inteligência artificial, segundo dados da Polícia Federal.

O uso de deepfakes cresceu 830% no país entre 2024 e 2025. 

Além disso, as fraudes corporativas com inteligência artificial cresceram 126% no Brasil em 2025, segundo levantamento da plataforma Sumsub, colocando o país entre os principais alvos desse tipo de fraude na América Latina.

Representação visual de deepfake com rosto humano sobreposto a código digital.

Por que os controles tradicionais falham?

A maior vulnerabilidade dos sistemas de verificação atuais é que eles foram projetados para um mundo em que ver e ouvir era suficiente para confiar. 

A biometria facial, por exemplo, tornou-se uma camada padrão e obrigatória de autenticação em plataformas de crédito digital.

Mas os modelos comerciais mais utilizados foram treinados em bases de dados anteriores a 2020, sem exemplos de deepfakes de nova geração.

O resultado prático é preocupante: a taxa de falsa aceitação de sistemas biométricos convencionais pode saltar para entre 12% e 18% diante de deepfakes de quinta geração, segundo testes da Agência da União Europeia.

Em outras palavras, um sistema projetado para ser altamente confiável passa a aceitar identidades falsas em uma a cada oito tentativas.

O problema, portanto, não é apenas tecnológico. É também humano. 

Muitos controles internos ainda partem da premissa de que um documento bem formatado, com assinatura aparente e um rosto parecido, é confiável, uma premissa que a IA generativa tornou perigosamente obsoleta.

Como o investigador moderno precisa pensar?

O perfil do profissional de compliance e investigação de fraudes está sendo redesenhado por essa nova realidade de fraudes corporativas com IA. Não basta conhecer regulamentações e procedimentos documentais. 

O investigador moderno precisa compreender as vulnerabilidades tecnológicas dos sistemas que sua organização utiliza, reconhecer os padrões de ataque que combinam engenharia social com IA e estruturar processos de verificação que não dependam de um único ponto de confiança.

Na prática, isso significa desenvolver competências em análise de risco tecnológico, entender como funcionam as ferramentas de síntese de voz e vídeo e implementar protocolos de verificação em múltiplas camadas.

Promovendo assim uma cultura organizacional de ceticismo saudável em solicitações de crédito, alterações cadastrais ou transferências financeiras, independentemente de quem aparenta estar do outro lado.

Algumas medidas já comprovadas na contenção dessas fraudes incluem:

  • Palavras-chave e código de segurança internos para validar solicitações sensíveis, especialmente fora dos canais digitais;
  • Verificação cruzada em canais distintos sempre que houver uma solicitação financeira ou alteração de dados cadastrais;
  • Análise de metadados e documentos recebidos digitalmente;
  • Treinamento contínuo de equipes de crédito e compliance para reconhecer padrões de engenharia social avançada;
  • Adoção de arquitetura Zero Trust, que parte do princípio de que nenhuma identidade deve ser considerada confiável sem verificação.

Um risco estratégico e não apenas operacional

O risco deixou de ser apenas operacional. 

Quando uma fraude compromete um processo de aprovação de crédito B2B, ela não gera apenas perda financeira direta, gera dano reputacional, questionamentos e fim da confiança com parceiros comerciais. 

Para organizações que operam em mercados regulados, as consequências podem ser ainda mais amplas. Por isso, entender e enxergar as fraudes corporativas com inteligência artificial como um risco estratégico é o primeiro passo para construir respostas à altura do problema.

A Trevisan oferece formações específicas para quem deseja atuar no nível estratégico da investigação de fraudes.

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