Com a chegada de novos sócios, a Trevisan Escola de Negócios muda seu currículo para incorporar ciência de dados na formação dos profissionais

Ricardo Grinbaum

05 de março de 2020 | 06h00

Novas propostas para o ensino, segundo a Trevisan:

Carreiras hoje são inseparáveis de ciência de dados, machine learning, internet das coisas e inteligência artificial
Não basta ter conhecimento teórico, é preciso saber resolver problemas com o uso da ciência de dados
Administradores, contadores, advogados e médicos devem estar preparados para promover as mudanças disruptivas na profissão
Os profissionais terão de montar algoritmos diferenciados e saber tirar insights originais dos dados
Em ciência de dados, é preciso ter, além do conhecimento técnico, uma visão humanista para levantar as perguntas certas
Os profissionais vão ter de repensar suas carreiras várias vezes ao longo da vida
O mundo profissional está em processo de transformação radical constante e não vai voltar atrás

VanDyck Silveira, CEO da Trevisan Escola de Negócios Foto: Divulgação

Os 5 mil alunos de Administração e de Contabilidade da Trevisan Escola de Negócios iniciaram o ano letivo de 2020 com uma novidade de peso no currículo. A partir de agora, ciência de dados deixa de ser um tema extra e passa a fazer parte do dia a dia da sala de aula. Das 4 mil horas da grade total dos cursos, entre 600 e 700 horas serão dedicadas a temas como big data, inteligência artificial e internet das coisas. E os alunos não terão apenas aulas teóricas. Farão projetos práticos de aplicação das novas técnicas em Administração e de Contabilidade. A escola também acaba de criar um MBA exclusivamente dedicado à ciência de dados.

Criada a partir da tradicional consultoria, a escola de negócios andou a passos lentos nos últimos anos e decidiu se reinventar com a chegada de novos executivos. Há cerca de um ano, VanDyck Silveira, que trabalhou com Paulo Guedes e Claudio Haddad no Ibmec, virou sócio e assumiu o posto de CEO da Trevisan Escola de Negócios. Seu objetivo é levar o grupo a um rápido crescimento, ao incorporar a ciência de dados na formação básica dos profissionais – além de abrir novos cursos, como Direito, Ciência da Computação e Engenharia da Produção. Ele aposta que o processo de transformação digital vai se aprofundar. “Em pouco tempo, não haverá mais cientista de dados. Haverá um cientista de dados dentro de um contador, de um médico, de um engenheiro ou de um advogado”, disse Silveira, na seguinte conversa com o blog:

Por que a Trevisan está mudando seus cursos?

A Trevisan teve muita evidência no começo dos anos 2000 com a criação da faculdade. A gente já foi maior do que hoje, andou uns anos um pouco desaparecido, voltado para o mercado B2B (entre empresas). No começo de 2018, a escola começou um processo de mudança com a entrada de novos executivos. Notamos que no Brasil a gente tinha escolas de negócios muito boas, mas vocacionadas para a economia industrial. Eram as mesmas disciplinas dos anos 1970. Por outro lado, temos escolas de engenharia, com viés de dados, o Impa, o Ita, o Ime, a Poli, mas elas têm muito pouco conhecimento do mundo de negócios. No Brasil a interdisciplinaridade é muita rara. Trabalhamos em silos acadêmicos que não se misturam. O Insper, uma escola de negócios de vanguarda, ainda tem foco muito industrial. Decidimos reposicionar e recriar a marca Trevisan com uma mudança na lógica. Queremos nos colocar na confluência do mundo dos negócios, da tecnologia e da transformação digital. Hoje é inseparável a carreira em Administração ou Contabilidade com a ciência de dados, com o machine learning, com a internet das coisas e com a inteligência artificial.

Qual o papel da ciência de dados?

A ciência dos dados é o motor de popa de todas essas tecnologias. Se você não tiver não somente fluência, mas também o conhecimento da aplicação para solução de problemas de negócios no cotidiano, você é apenas um bom técnico, mas não fala a língua do mundo. E o Brasil está muito atrás dos EUA, da China e da Europa nesta transformação digital. A gente tem uma produção muito baixa de engenheiros e de administradores, de economistas que são profundamente conhecedores das tecnologias de ciências de dados. Nossa proposta é criar esse profissional na confluência desses fatores. Temos um dos cursos mais notórios de Contabilidade, uma disciplina que, muitos dizem, pode morrer pela automatização e pela inteligência artificial. Por que não recriar os cursos de Contabilidade e de Administração para que tenham uma forte carga de ciência de dados? Queremos que o aluno saia fluente neste tipo de conhecimento para que seja capaz de produzir tecnologia, de provocar a disrupção da própria profissão.

Por que criar um MBA em ciência de dados?

Inoculamos essa tese no programa de graduação, mas ainda não estávamos satisfeitos. Criamos então um MBA totalmente focado em ciência de dados. Está na moda falar em big data. Big data está contido no conjunto mãe da ciência de dados, a gênese de toda a transformação digital. Se você ensinar uma pessoa a fazer uma especialização apenas em big data, seria mais ou menos um economista que só sabe de microeconomia, mas não sabe de economia abrangente. Queremos ir à essência do negócio. Hoje existe uma enorme demanda por cientista de dados, mas tudo indica que é temporário. Em pouco tempo não haverá mais cientista de dados. Haverá um cientista de dados dentro de um administrador, dentro de um contador, dentro de um médico, de um engenheiro, de um advogado. Essas profissões serão inseparáveis da ciência de dados. Fui almoçar com um dos sócios do C6 Bank para falar do nosso projeto e ele me contou que apenas um terço dos funcionários deles é ‘banker’, os outros dois terços são cientistas de dados e profissionais de tecnologia. Isso mostra que falta no banker essa capacidade de ciência de dados, de compor um algoritmo, de criar uma solução tecnológica.

Como vai funcionar na prática a mudança nos currículos tradicionais?

Os cursos de Administração de empresas e de Contabilidade têm ao todo pouco mais de 4 mil horas cada. Dessas 4 mil horas, 600, 700 horas são destinadas à ciência de dados. Incluindo ferramentas, modelagem, utilização de softwares, tecnologias usadas no dia a dia. Em todas as disciplinas temos a visão da disciplina pela ciência de dados. A gente não espera que seja apenas um esforço acadêmico. Quer que os alunos já comecem a pensar a respeito de fintech, accountech, lawtech. Como resolver problemas por meio da inteligência artificial e dos dados em cada uma das disciplinas. Existe uma série de laboratórios em cada disciplina onde vamos criar um portfólio de atividades em que os alunos façam as coisas, não apenas aprendam. Em paralelo, estamos criando dentro da Trevisan uma aceleradora de negócios digitais, um hub focado em fintech, accountech, lawtech e possivelmente outras techs que vão aparecer. Desde o primeiro semestre, o aluno trabalha dentro de empresas que vão ser aceleradas aqui. Acho muito louco o sujeito que se forma administrador de empresas sem portfólio de coisas que criou, para mostrar o que sabe fazer.

Pelo seu projeto, o que um aluno estará apto a fazer ao ser formado?

Para você ter uma ideia, o MBA tem em média 360 horas. No curso de graduação da gente terá quase 700 horas de ciência de dados, mais do que o dobro do que num MBA. Essa vai buscar mais que entender padrões, mas buscar insights. Manipular os dados de uma maneira que nos habilite a não só fazer aquilo que nos dispomos a fazer numa consultoria, num banco, mas também criar modelos tecnológicos que façam os processos muito mais rápidos, ágeis e eficientes. São profissionais que vão poder montar algoritmos diferenciados. Conheci uma empresa em uma incubadora em Pequim que pode dar crédito. Em dois segundos, ela faz uma triagem de 5 mil pontos de dados de cada candidato (score de crédito) e leva em consideração variáveis como a frequência que o cliente deixa acabar a bateria do celular. Aparentemente existe uma correlação forte entre deixar o celular sem a bateria e ser uma pessoa mais atenta, mais disciplinada. Como o cara descobriu isso? São esses insights que vamos buscar.

Para o estudante: em que áreas a ciência de dados vai fazer diferença?

Será importante em todos os campos profissionais. Mesmo que seja um profissional que não use diretamente ciência de dados, vamos dizer um artista. Para pensar a respeito de materiais, composições, cores diferentes, ele vai usar ciência de dados. Tem muita ignorância sendo falada sobre o assunto por medo. Claro que precisamos levar em conta as questões éticas, não queremos suplantar o ser humano, mas eu vejo com muito otimismo a relação com as profissões. Algumas profissões serão totalmente disruptivas. É possível que em dez anos não haja nenhum ser humano dirigindo um trator ou um caminhão. Ao mesmo tempo, milhões de empregos novos vão surgir para compensar. No dia em que surgiu o automóvel não acabou emprego, mas substituiu o trabalho no haras. Estamos num processo de disrupção irrevogável, não vamos voltar atrás. Os bons e velhos tempos não eram tão bons assim. Vamos ter muito mais tempo disponível para nós mesmos. Vamos ter um excedente de produção e de riqueza, é possível que a gente tenha uma classe de seres humanos que pagamos para consumir aquilo que é produzido.

E para quem já está trabalhando? Como as pessoas devem se adaptar?

Eu buscaria treinamento formal e informal. Desde leitura, assistir vídeos no YouTube, ouvir podcasts, até buscar formação complementar. Cursos de curta duração e MBA para pessoas que vêm do mundo analógico e querem aprender a usar essas ferramentas tecnológicas e seguir carreira como médico, psicólogo, administrador, contador. A minha geração, tenho 46 anos, é a ultima que se criou, decidiu o que ia estudar e não tinha expectativa de se recriar de novo. Daqui para frente, a pessoa vai ter de tomar várias decisões dessas ao longo da carreira.

Qual o conhecimento mínimo que um profissional de negócios precisa para se adequar à novas tecnologias?

Sou economista, tenho Ph.D., estudei econometria, mas minha econometria é um traque diante desta explosão atômica. Agora é necessário buscar o dado, fazer a curadoria e usar a informação em um modelo para produzir insights não triviais. São milhões de microdados que juntos compõem não uma foto, mas um filme das pessoas. É precisa ter a capacidade de antecipar desejos e anseios, entender ao longo do dia qual é o melhor momento colocar no smartphone uma propaganda, que a pessoa tem propensão a interagir. Também tem um lado humanístico, capacidade de fazer perguntas, saber quais são as mais importantes. Como cientista de dados, as perguntas são mais importantes que as respostas. Trabalhar a empatia na ciência de dados, tem muitas questões que são artísticas.