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O compliance e sua dimensão humana

Publicado em: 27/09/2017

Renato Almeida dos Santos

Desenvolver compliance sob a ótica de sua dimensão humana e mitigar riscos relacionados às condutas antiéticas dos profissionais é uma necessidade em si e, adicionalmente, tem impactos positivos na imagem organizacional, no ambiente de trabalho, na motivação dos profissionais e na perenidade das organizações.

Por esse prisma, discutir "integridade" considerando-a como a intensidade de manifestação de comportamentos dignos e honestos, isto é, o quanto o indivíduo compreende o contexto e pauta suas atitudes na perspectiva moral, é compreender a conduta de acordo com a regra (compliance) ou com o seu desvio (fraude e assédio).

O contexto organizacional criado e compartilhado pelos membros da organização é a amálgama entre o nível micro e o nível macro para a análise da dimensão humana do compliance, e sua compreensão pode apontar fatores influenciadores de comportamentos de seus indivíduos.

Então, temos no nível meso a cultura organizacional, com seus valores e pressupostos sobre o que é certo e errado, apresentando diretrizes para os seus membros, e estes influenciando também na constituição, mudança e reforço da cultura. As contingências impostas pela cultura podem coibir ou reforçar ações fraudulentas. E a organização pode influenciar sobremaneira na manutenção ou revisão da sua cultura, influenciando na percepção ética dos seus membros.

O comportamento humano, na perspectiva da implantação de um programa de Compliance, não pode ser considerado isoladamente, mas precisa da perspectiva interacionista para analisar o micro (indivíduo), o meso (cultura) e o macro (organização). "Demonizar" o colaborador que se tornou um fraudador, considerando-o um ser anômalo em essência, é uma trilha estéril, mas a compreensão das circunstâncias que influem na decisão do indivíduo mostra possibilidades de intervenção.

Se indivíduos cometem fraudes por influência das contingências, por mais variadas que estas sejam, há um prenúncio alentador: é possível não só prevenir, no sentido de aumentar a eficácia dos procedimentos para lidar com a fraude, mas também há a possibilidade de relativa predição quanto à formação do agente.

Segundo o modelo preditivo "Pentágono da Fraude", para que uma fraude ocorra são necessários cinco fatores: racionalização, pressão, oportunidade, capacidade e disposição ao risco. A racionalização diz respeito ao discernimento do indivíduo sobre o certo e errado, a percepção moral que tem quando se depara com dilemas éticos que pautarão suas atitudes.

O fraudador precisa racionalizar seus atos; ele necessita justificar para si e para os outros que determinada ação não é errada ou, caso o seja, amenizar a situação flexibilizando os padrões éticos. A pressão é aquela a qual o indivíduo esteja submetido, considerando o contexto em que o potencial fraudador esteja vivendo em um determinado momento de sua carreira.

Oportunidade é a ideia que o potencial fraudador faz do quão vulnerável o objeto desejado está, bem como a visualização que tem dos meios para a execução dessa fraude. Ao tratar de capacidade, refere-se à habilidade do indivíduo que, com má intenção, consegue operar o sistema de forma ardilosa objetivando o cometimento da fraude. De nada adianta o pretenso fraudador possuir acesso ao sistema que pretende fraudar se ele não tem a competência para executar seu plano.

Disposição ao risco é a análise dos custos versus benefícios para decidir pelo cometimento ou não da fraude. Antes de se tornar um fraudador, o colaborador mensurará se os benefícios que a fraude trará cobrem os custos, na hipótese de ser descoberto e punido.

Sócio da S2 Consultoria e Coordenador do MBA em Gestão de Riscos e Compliance da Trevisan Escola de Negócios


Fonte: Jornal do Comércio


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